Marxismo e Alienação

Marxismo e Alienação


No texto anterior abordamos brevemente o que é marxismo em sua essência, ou seja, a concepção marxista do homem. Hoje iremos tratar da luta contra a alienação, que é o escopo final do marxismo. A emancipação do proletariado e a construção do socialismo são meios para esse fim. Os conceitos de alienação e desalienação são fundamentais na toeria marxista.


Os conceitos de alienação e desalienação

O que é alienação? Segundo Milcíadade Peña, alienação, no pensamento marxista, significa que o homem está dominado por coisas que ele próprio criou. Significa que o homem projetou partes de si mesmo, transformou-as em coisas e que essas coisas adquiriram força autônoma e agora dominam o homem. Essas criações do homem são um cojunto de relações econômicas e sociais, que são produto do seu trabalho. Portanto, o sistema econômico, a divisão do trabalho e de gênero, as instituições jurídicas e administrativas, as instituições religiosas, etc, passam a ser vistos pelo homem como “naturais”, coisas que existem desde sempre e para sempre irão existir. É dessa forma que essas coisas dominam o homem, pois o mesmo já perdeu controle delas e passa a ser controlado por elas. A desalienação, por sua vez, significa pôr sob controle essas coisas que o homem criou e que passaram a oprimi-lo. A desalienação é o reencontro do homem consigo mesmo: ao colocar novamente sob seu jugo suas projeções, o homem resgata a si mesmo.


“Alienação é o que Heine descreveu na Inglaterra, “onde as máquinas se comportam como seres humanos e os homens como máquinas”.[1]


A ação conjunta dos indivíduos – diz Marx – vai criando mil forças produtivas. Mas uma vez criadas, essas forças deixam de pertencer aos que a criam, tornam-se hostis e tiranizam-nas”. “Assim como nas religiões o homem é dominado pelas criaturas de seu próprio cérebro, na produção capitalista o vemos dominado pelos produtos de seu próprio braço” (O capital, I). Os preços das mercadorias “mudam constantemente, sem que nela intervenham a vontade e o conhecimento prévio nem os atos das pessoas entre as quais se realiza a mudança. Seu próprio movimento social cobra aos seus olhos a forma de um movimento de coisas sob cujo controle eles estão, em vez de serem eles que o controlam” (O capital, I).”[2] 


Os processos de alienação

Os homens trabalham. O trabalho pode ser entendido como a ação criativa básica do homem. Ele serve, primeiramente, para que as necessidades mais elementares (comer, vestir-se, habitar-se), sejam satisfeitas. Satisfazendo essas necessidades, os homens criam novas necessidades e assim infinitamente. 


Todavia, os homens não trabalham somente para satisfazer suas necessidades. Eles também se relacionam entre si e se reproduzem. "Entra-se assim a relação entre homem e mulher, pais e filhos, isto é, a família."[3]


“Pelo trabalho nascem objetos, que possuem uma espécie de existência independente em

relação ao seu criador, que é o homem. Nas sociedades primitivas, onde o produtor consome seus próprios produtos, essa independência do objeto se esgota rapidamente no momento em que seu criador o consome. Mas quando começa a produção de mercadorias, sobretudo na sociedade capitalista, os objetos, convertidos em mercadorias, escapam ao controle do produtor - que já não os consome ele mesmo - e adquirem independência, dominando o homem através da lei do valor, do dinheiro, do preço e demais categorias e leis econômicas.”[4]


Elucidando melhor a passagem citada acima, esses objetos que o homem fabrica adquirem existência independente porque são coisas externas a ele. Portanto, embora esses objetos tenham sido fabricados pelo homem, eles permanecem existencialmente exterior ao homem. Considerando que as forças produtivas das sociedades primitivas eram muito rudimentares, e o homem dependia muito daquilo que ele caçava, coletava ou plantava, esses objetos possuíam uma existência independente extremamente limitada, afinal, eles eram consumidos em um nível muito rápido. 


Basicamente, quanto menos excedente o homem — e com homem, leia-se, sociedade — era capaz de produzir, menos independência suas produções adquiriam dele. Quando os objetos produzidos pelo homem atingem um nível relevante de excedente, eles se tornam mercadorias. A mercadoria é a categoria fundamental do capitalismo. Com o avanço das forças produtivas, o homem passou a produzir muito mais do que ele tem capacidade de consumir, em consequência disso surgiram as trocas comerciais e o início do capitalismo. Em vista disso, o ser humano passou a ser dominado pelas relações criadas a partir do excedente: suas produções lhe escaparam completamente o controle e o homem passou a ser subjugado pelas leis do valor, do dinheiro, do preço e das demais categorias e leis econômicas. 


Como o homem não é não homem isoladamente e tanto seu trabalho, sobrevivência e relações — como a relação que visa produzir outro ser humano — necessitam de outros homens, o sistema social se complexifica cada vez mais. Além das relações de produção o homem articula meios que regulam toda a atividade social e faz isso através da criação de instituições, sejam elas instituições de mercado, instituições jurídicas ou religiosas. Estas instituições também passam a ter uma certa independência e acabam por dominar o homem, que as vê como naturais e eternas, esquecendo-se que elas nem sempre existiram. E dentro desse emaranhado social criado pelo ser humano, ocorre o processo de divisão do trabalho. A divisão dos papéis sexuais entre homens e mulheres na reprodução de outro ser humano é o primeiro tipo de divisão que o ser humano conhece. Logo mais entram as divisões, como a divisão do trabalho intelectual e trabalho manual, e dessas divisões surgem também a possibilidade de certos homens se apropriarem do produto do trabalho de outros homens — a divisão de classes. 


A sociedade de classes, que no capitalismo se divide entre aqueles que detém os meios de subsistência e aqueles que detém apenas a força de trabalho, cria um tipo de alienação que Marx denonima de alienação do trabalho.


A alienação do trabalho 

Ao se dividir a sociedade em classes, o homem passa a utilizar outros homens para satisfazer suas próprias necessidades. Na Antiguidade, com o modo de produção escravagista, os senhores possuídores de escravos utilizavam-se deles para a satisfação das necessidades mais básicas, inclusive sexuais. No capitalismo, a burguesia se utiliza dos trabalhadores assalariados. O trabalho torna-se alienado, pois, além do produto produzido pelo trabalhador apresentar-se a ele como um ente autônomo que ele não domina, esse produto passa pertencer a outra classe, a classe dominante. 


Não só os trabalhadores são alienados daquilo que produzem — literalmente, os trabalhadores não tem acesso direto e imediato a sua produção, e as vezes nem pelo mediador, que é o dinheiro — como o próprio trabalho passa ser algo estranho a ele. 


"Privado da propriedade dos meios de produção, o indivíduo não se reconhece mais plenamente no produto de seu trabalho e tem acesso a ele apenas mais tarde, ao comprá-lo no mercado. Ou seja, em vez de se apropriar de imediato do produto resultante do ato de trabalho, o trabalhador precisa comprar no mercado aquilo que, muitas vezes, ele mesmo produziu para seu empregador. A apropriação só acontece por meio da mediação do mercado, que aparece como a instância central da economia, tal como pensa a maioria dos economistas ainda hoje. O produtor não se reconhece no produto, não se reconhece como produtor, e afirma-se socialmente como comprador e consumidor."[5]


“E desde então, ao ficar alienado, o homem fica alienado de seu trabalho. Já não só os produtos de seu trabalho aparecem diante do homem como coisas e poderes estranhos. Agora é seu próprio trabalho que lhe aparece como algo estranho, externo.”[6]


O trabalho, que é a essência humana, expressão de sua capacidade criativa e transformadora, torna-se instrumento de tortura e sofrimento. Ora, afinal, o trabalho não mais é um meio do homem realizar-se como homem, mas um mero meio de subsistência. O homem alienado trabalha somente para sobreviver! 


“O homem já não trabalha porque trabalhar é a essência humana e só no trabalho se realiza o homem. Agora o homem alienado trabalha para viver. O trabalho não é mais a condição e o pressuposto superior da vida, mas é simplesmente um meio, um instrumento, não para realizar a vida, mas para atender às necessidades biológicas mais importantes. Este é o quadro geral – muito por cima – do que o marxismo chama de alienação do homem.”[7].


Não, por acaso, como afirma Marx, à primeira oportunidade que surge o homem foge do trabalho como se estivesse fugindo de uma praga. A luta de classes se manifesta, com ambas as classes demonstrando possuir interesses distintos. Em uma sociedade de classes, tal como é a sociedade capitalista, o trabalho deixa de ser voluntário, se torna forçado. As pessoas não trabalham mais porque querem, mas sim porque precisam. Não trabalham em suas áreas de interesse, mas sim nas áreas que são capazes de fornecer melhores condições vida. A própria liberdade de escolher quando e onde trabalhar é substituída pela necessidade de se trabalhar onde se tem oportunidades de trabalho disponíveis!


“O trabalho alienado é um trabalho de sacrifício de si mesmo, de mortificação... Certamente o trabalho produz para os ricos coisas maravilhosas, mas para o operário, deformações.” [8]


A perda da propriedade por parte do trabalhador, além da alienação do trabalho, gera também um processo generalizado de perda de controle de todas as outras esferas da vida social. Sendo quem detém o poder econômico detentor também do poder político, o trabalhador além de se tornar alienado daquilo que ele próprio produz, sendo submetido aos caprichos e tendências do mercado, não possui poder de atuação na esfera jurídica. Seus direitos são limitados e desiguais aos direitos da classe dominante — a burguesia. 


"Dessa inversão resulta uma espécie de mal-estar generalizado, próprio do mundo capitalista. O indivíduo burguês orgulha-se de ter alcançado a liberdade e a autonomia, mesmo que essa individuação resulte apenas na perda de diferenças qualitativas: a produção e o mercado conseguem incorporar somente o indivíduo médio, comum, originário de um processo de normalização, de “abstração”, nas palavras de Marx. Esse tipo de igualdade reflete-se no preceito jurídico de que “a lei não faz diferenças nem reconhece privilégios”, é “isenta”, “neutra”, “justa”. Na verdade, trata-se de uma igualdade e de uma liberdade instituídas pelo poder estranho, fetichista, que o conjunto da sociedade gerou e que faz todos sentirem, pelo menos em algum momento, quando é possível refletir, que algo da vida lhes escapa."[9]


Conclusão

Após essa exposição introdutória ao tema da alienação no marxismo, é possível afirmar que, por excelência, o marxismo possui um profundo anseio pela libertação do gênero humano. Sua luta contra o capitalismo tem como fim a construção de uma nova forma de sociabilidade entre os homens consigo mesmo e com a natureza. O marxismo quer que o homem volte a ser senhor de si mesmo, que este possua clara consciência do seu papel histórico e que não mais deixe-se levar pelas determinações materiais e pelas condições opressivas que o mesmo projeta. "Porque o que o marxismo quer — e isto é a sua essência — é um novo tipo de relações entre os homens, nas quais os homens não sejam dominados por coisas nem fetiches; nas quais o homem seja o mestre absoluto, dono soberano de suas faculdades e produtos, e não escravo da mercadoria e do dinheiro, da propriedade e do capital, do Estado e da divisão do trabalho"[10]

Referências bibliográficas

[1][2][3][4][6][7][8][10]Introdução ao pensamento de Marx; Milcíades Peña

[5][9]Marx: Uma Introdução; Jorge Grespan

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