A Essência do Marxismo

 A Essência do Marxismo



Karl Marx é, sem dúvidas, um dos pensadores mais difamados da História. Seus opositores, na ausência de teorias capazes de combater o marxismo — aqui entendido como o pensamento original de Marx — lançam mãos de falsificações e mentiras violentas. Por outro lado, Marx ainda é muito mal compreendido mesmo por aqueles autointitulados marxistas. A social-democracia e o bolchevismo transformaram o marxismo em um mero programa de melhorias para a classe trabalhadora; reduziram o método marxista a uma espécie de teoria geral da História, a um materialismo mecanicista e economicista. 


Vulgarizadores e difamadores do marxismo trabalham lado a lado, contribuindo para incompreensão do pensamento de Marx, nublando sua essência e diminuindo sua importância e real poder. Está na hora de debater o marxismo a partir do que ele realmente é.


A essência do marxismo 


Milcíades Peña aponta que o marxismo nasce como uma concepção geral do homem e, por conta dessa concepção, é uma crítica a sociedade capitalista — sociedade em que nasce o marxismo. Como consequência da crítica ao capitalismo, é também um programa de superação desta sociedade. Marx disse — "Os filósofos tem até agora se limitado a interpretar o mundo; o importante é transforma-lo."[1]


Pois bem, como demonstrado por Milcíades, a essência do marxismo é sua concepção geral do homem. Todas as outras construções filosóficas e reflexivas de Marx orbitam em volta desta concepção.


A concepção marxista do homem 


O marxismo é humanista. Coloca o homem e suas potencialidades no centro de toda a reflexão. Para Marx, não há nada na natureza que esteja acima do homem e que o controle.  


"O marxismo afirma que não existe nada na terra e seus arredores superior ao próprio homem. O único criador que o marxismo reconhece é o homem, que com seu trabalho cria um mundo novo e modifica a natureza e modifica a si mesmo. O marxismo rejeita o conceito de Deus e de qualquer força extra-humana ou sobre-humana, situada acima do homem e que domine o homem, chamem-na de Deus, História, Destino ou Espírito Santo."[2]


Isso pode chocar principalmente as mentes mais religiosas e dogmáticas, porém, de certo, essa é a raiz humanista do marxismo. Enfim, por conta dessa raiz humanista, o marxismo reconhece e defende a capacidade humana de transformar a própria realidade e progredir para um futuro cada vez mais humano, ou seja, um futuro onde o homem possa se realizar plenamente como homem, sem exploração e com o mínimo de sofrimento possível. O paraíso que as religiões atribuem ao pós morte, no além, Marx diz, é possível criá-lo aqui mesmo, na terra, em vida. Claro, não se trata de um paraíso no sentido absoluto da palavra: não é uma sociedade sem problemas e sem sofrimento. Marx não acredita em um fim da História, na ausência de problemas, mas é profundamente otimista em relação a capacidade humana de reduzir as contradições que lhe afligem — o próprio capitalismo representa um grande avanço em rumo a esse fim. 


[...] o criador e o mestre do paraíso e do inferno é o homem, que os cria com o seu trabalho. O marxismo não acredita que a história acabará[...]. O marxismo acredita que sempre haverá problemas, lutas e conflitos. Mas é profundamente otimista, porque acredita que o homem é capaz de forjar um destino cada vez mais humano; isto é, um destino no qual o homem não explore outro homem, no qual o homem possa aplicar boa parte da sua capacidade criadora, não a lutar contra outros homens para comer e vestir-se, mas em criar uma vida mais cheia de conforto e beleza, de solidariedade e liberdade, isto é, uma vida mais propriamente humana."[3]


O leitor pode perguntar: se o homem de fato possui tal capacidade criativa, por que até os dias de hoje, ao invés de criar um mundo cada vez mais justo, temos produzido um mundo repleto de guerras, desigualdade e miséria? Veremos abaixo a reposta marxista a essa questão.


Alienação e desalienação: a verdadeira luta do marxismo


"O conceito de alienação e da luta pela desalienação, são a essência, o coração do pensamento marxista."[4]


São muitas as ideologias que tentam dar naturalidade ao sofrimento e mazelas humanas. As religiões são um exemplo. Dizem que nossos problemas são frutos do pecado, de criaturas maléficas ou do Destino. Até mesmo concepções de mundo disfarçadas de científicas contribuem para a falsa ideia de que as desigualdades, a exploração do homem pelo homem, e todos os problemas de raiz social, são oriundos da natureza humana ou de qualquer ordem intrínseca escrita na natureza e em nosso DNA. Toda ideia ou concepção de mundo que desvia o homem de reconhecer a raiz de seus reais problemas são ideologias. 


Para Marx, esses problemas existem porque o homem se encontra alienado, ou seja, ainda não é integralmente humano, e vão desaparecer com a desalienação do próprio homem, de um reencontro do homem consigo mesmo. 


"Por isso não fala de salvações no além, mas do resgate do homem, do reencontro do homem com suas novas qualidades."[5]


E o que é alienação? Alienação é quando as criações humanas — fruto do trabalho —, como mercadorias, instituições sociais, religiosas, ideias, etc, adquirem "vida" própria, independência autônoma, e passam a dominar o próprio homem. A desalienação, por consequência, seria a retomada de controle dessas coisas criadas pelo homem. 


"Alienação significa que o homem projetou partes de si mesmo, transformou-as em coisas, e que essas coisas dominam o homem. Desalienação significa que o homem ponha sob o seu controle essas coisas que o oprimem e que são partes dele mesmo, produtos de seu trabalho."[6]


A sociedade capitalista é uma sociedade alienada. Não é alienado somente o trabalho, como Marx expôs, mas também as relações humanas, a família, o amor. Tudo o que é feito e reproduzido na sociedade capitalista é alienado. Contudo, pela primeira vez na História existem condições de superação dessa alienação, condições para a construção de uma sociedade onde as contradições sejam reduzidas e homem seja plenamente humano. A luta por essa sociedade é a luta pela liberdade humana! A liberdade do homem é a aspiração fundamental do marxismo. 


Socialismo como norte da realização humana 


O marxismo é uma luta incansável e incessante contra todo tipo de alienação, sejam elas materiais ou místicas, e todo resto são meios para esse fim: a desalienação que resulta na libertação do homem. 

E onde o socialismo entra nisso? Bem, o capitalismo representa um progresso gigantesco em relação as forças produtivas. Nunca na história da humanidade tivemos uma capacidade produtiva tão extraordinária como temos agora sob o capitalismo. O problema é que os avanços que o capitalismo trás consigo, estão repletos de contradições. Só para dar um exemplo simples, temos capacidade de produzir tudo para todo mundo, mas poucas pessoas tem acesso àquilo que é produzido. O capitalismo, pois, manteve a divisão de classes e os elementos que alienam o homem. Porém, a medida que o próprio capitalismo se desenvolve, ele cria condições para sua própria destruição e superação — uma delas é o proletariado.


O proletariado é o agente revolucionário produzido pela sociedade capitalista, que simplificou os conflitos de classes. Segundo Marx cabe ao proletariado tomar o poder e dar início ao processo de superação do capitalismo. A nova sociedade sem exploração que é o Socialismo, é possível pela próprias condições criadas pelo capitalismo: a tecnologia, o avanço da técnica e das forças produtivas. 


Está posto pois o motivo de Marx ter tomado partido do proletariado e aderido ao movimento comunista: o proletariado se tornou a única classe capaz de dar cabo a esse sistema falido e dar início a um processo de luta pela libertação do gênero humano. 


"Tudo isso é fundamental e é ótimo, assim como são ótimos os satélites e as grandes usinas e tratores, etc. Mas, para o marxismo, tudo isso são meios e nada mais. Porque o que o marxismo quer – e isto é a sua essência – é um novo tipo de relações entre os homens, nas quais os homens não sejam dominados por coisas nem fetiches; nas quais o homem seja o mestre absoluto, dono soberano de suas faculdades e produtos, e não escravo da mercadoria e do dinheiro, da propriedade e do capital, do estado e da divisão do trabalho."[6]


Parafraseando uma célebre frase contida no Manifesto Comunista, os HOMENS nada tem a perder em uma revolução comunista, a não ser suas correntes.


Referências Bibliográficas


[1] Teses sobre Fuerbach - Karl Marx

[2][3][4][5][6] Introdução ao pensamento de Marx - Notas de um curso de 1958; Milcíades Peña


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